quinta-feira, 4 de junho de 2009

O ser e o silêncio

Ao observamos as pessoas e o estar de cada uma delas notamos constantemente o barulho. O Ser, para estar e ser notado, há que fazer emissão de algum som: passadas, abrir ou fechar de portas, ligar ou desligar de sons. O silêncio é comumente confundido com o sintoma da ausência.
Para elem das diversas hermenêuticas que se pode fazer acerca do silêncio, vamos nos debruçar na sua contemplação útil às nossas atividades em busca de um ponto de equilíbrio e tantativa de “dar conta” do nosso existir. Fico encabulado ao perceber que algumas pessoas reduzem o fazer silêncio ao mero fechar de bocas e o fazer barulho a fricção de corpos e a conseqüente emissão de sons. Mas para se fazer silencio é necessário um movimento homeostático que perpassa o cerrar de bocas e o repouso amistoso que cessa a fricção de corpos.
Ouvimos constantemente uma série de rumores que são, como tal, componentes de nosso dia-a-dia e, independentes do homem e, com uma função teleológica que, nem ao longe, se relaciona com o egocentrismo humano. Daí o cantar dos passarinhos, o passar dos carros de outrem, o zunir de bichos estranhos, o cantar desafinado do vento, a orquestra das folhas movimentadas pela tempestade que ontem caiu - não para o nosso deleite –, exercem uma função que não nos é imputada, mas que deve ser por nós aproveitada.
Os barulhos que constantemente escutamos ou que, constante e ininterruptamente emitimos, devem fazer parte de nossa atitude contemplativa. E o que é o silencio senão uma atitude contemplativa? Não obstante o barulho externo deve existir em nós uma atitude que vai calando, num gesto infantil de aprendizado, as astúcias de nossa alma que diz e maldiz a todos os instantes a nossa própria existência, e coloca nosso coração em evidente denúncia, afinal, “ a boca fala do que o coração está cheio”(MT 12,34).
Encontramos, constantemente, em nosso meio, pessoas que usam do silêncio como uma forma de disfarçar um mal neurótico noogênico[1] de que são acometidos. Daí, fazer silêncio é, na verdade, calar o mal que não pode ser expresso ou, ainda, calar a falta de saúde mental que os torna incapazes de atribuir algum significado à existência e transformá-los em palavras afáveis e de partilha engrandecedora.
É bem verdade, e a sabedoria advinda da canção popular nos ensina: é preciso tomar cuidado com quem “fala demais por não ter nada a dizer”[2]. E é comum confundirmos verborragia com conteúdo, ou mera retórica vazia com uma oratória aprazível. “Há pessoas silenciosas que são muito mais interessantes que os melhores oradores”[3], e há diálogos que caminham no mistério inefável do “não-dito”, e o dito desmedidamente conduz-nos a uma vulgaridade.
Podemos encaixar ainda o silêncio numa categoria, mas essa, além de patológica é, muitas vezes, imoral: é a do silêncio tácito ou aquiescente. É uma atitude que implica omissão e consentimento diante de uma situação que inspira verbalização e uma atitude que, para além do verbalizar, nos compele a agirmos. É, de fato, uma prostituição das mais cruéis vender sua liberdade de expressão em troca de um silêncio licencioso e que conduz um bem-estar pessoal em detrimento de um bem comum.
A tarefa de silenciar hodiernamente é, na verdade, uma atitude pura de contemplação e que, certamente, produzirá profícuas ações e, a priori ou a posteriori, serão expressas por palavras. Mas essa atitude se torna cada vez mais desafiadora, “pois o silêncio não tem fisionomia, mas as palavras muitas faces.”[4] É justamente a face mutante das palavras que caracteriza a identidade do homem atual. Já não mais nos parece agradável a contemplação, sobretudo de si, e aí ligar o rádio, a TV, o ar condicionado ou ventilador velho e barulhento, conversar incessantemente ou ouvir os que conversam parece ser uma necessidade de dar conta de sua presença nos lugares ou de ter a mesma reconhecida por outros.
É interessante também observamos que, muito comumente, encontramos pessoas que se usam de uma falsa atenção ao outro, e nos falam da valoração da fala em detrimento da sua própria fala e de uma escuta apurada e incondicional. É bem verdade que é necessário escutar o outro numa atitude atenciosa e valorizar cada palavra dita, mas é verdade também que é preciso que o outro valorize as nossas atenções, afinal, poucas coisas na vida são de total passividade: o silêncio e a escuta são somente sob certos aspectos e não totalmente.
A atitude contemplativa gerada pelo silêncio é um estar só, mesmo que cercado de gente. Consiste na procura de um ponto de homeostase onde os ventos sempre impetuosos soprados pelo acaso não nos abala a firmeza de saber-se homem e mulher de bem. Consiste numa atitude de autoconhecimento que gera a elevação da auto-estima e traz a cada um, de acordo com suas necessidades, o amor próprio para continuar seguir silenciosamente e adiante.
Poderíamos passar dias a finco dizendo da eficácia, dos efeitos e da necessidade de silenciarmos no nosso dia-a-dia. Poderíamos atribuir a esse ato um valor que caminharia do terapêutico ao espiritual, passando pelo biológico, mas o aspecto que quero me ater para finalizar é o que tange a nossa existência e o seu programa essencial que é a busca do prazer - da felicidade. Apraz-me muito a relação Shopenhauereana que traz em seu bojo que, “da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.” [5] No silêncio, que está para além da ausência de sons, encontramos a nós e esclarecemos os nossos afetos mais inconscientes, depuramos cada fetiche, inclusive os que povoam o conceito de silêncio, e ouvimos a voz de Deus encontrando assim a paz.
[1] Descrição feita pelo Psiquiatra Victor Frankal para o chamado vazio existencial.
[2] Urbana, legião. “Índios”. Álbum “Dois”. 1986, EMI, São Paulo.
[3] Disraeli, Benjamin. Fonte desconhecida.
[4] Assis, machado de. Dom Casmurro.
[5] Shopenhauer, Artur. A sabedoria de vida. Tradução Jeanne Rangel. São Paulo, Golden Books, 2007.

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