sexta-feira, 5 de junho de 2009

A arte de padre Arnaldo Lima a Ricardo Pinto

Por muito tempo fiquei encantado com a poesia de Fernando Pessoa e com os traços da pintura figurativa do irlandês Francis Bacon. Achei que estes nomes encerravam o ciclo da mais fina flor de toda literatura e artes plásticas: a partir daí far-se-ia reproduções de simulacros e estímulos ignóbeis. Não quero com isso passar a impressão de que toda a arte se resuma a esses dois grandes nomes, mas esses são os meus prediletos, por isso trago eles como paradigmas de uma boa arte.
Dos encontros que tive ao longo de minha parca experiência com a arte tive a sorte de me deparar com uma gama de nomes que me fizeram, cada um a seu modo, enlouquecer. Nas diversas experiências, os meus sentidos foram afagados com a sensação de deleite e com a sensação acre de uma agressão sofrível. Por isso mesmo, fixar em alguns nomes me parecia uma questão de economia de tempo.
Encontros inesperados ocorreram e, graças a Deus, ainda ocorrem. Artistas refinados, desafinados, anônimos, e renomados fazem parte desse mosaico de aceitação sensorial ou de recusa. Lembro, por exemplo, quando, com muita alegria, descobri um jovem poeta baiano chamado Henrique Wagner. Seus poemas provocavam em minhas entranhas uma sensação orgástica, mas nunca mais tinha visto, desde o ano 2001, quando fui presenteado com um livro seu, nada igual. O fato é que eu gosto de novidades e “desprezo o que seja menos que descobrir um mundo novo”.
Daí me deparei com alegrias e desapontes, tanto na música, quanto na literatura e artes plásticas. Mas, ao longo dessas experiências pude desenvolver meu senso crítico e aguçar a minha pretensão às sagradas artes da poesia. Consegui adquirir a capacidade, por exemplo, de me recusar ouvir Marina e Sandy com seus semelhantes desafino e sobrenomes, e me aproximar dos falsetes de Ney Matogrosso e as canções psicodélicas de Zeca Baleiro, e a poesia de Fernando Pessoa com suas entradas e saídas dadas pela divina Maria Bethânia.
Mas, ultimamente, fui tocado por uma inexplicável maneira de conceber a arte e pude experimentar com a ânsia de quem quer viver tudo de uma só vez: toda a beleza e sabedoria do novo, que não aceita se comparar com o já dito, já visto, já tocado. Primeiro, deparei-me com a poesia do padre Arnaldo Lima e, em seguida, meus olhos puderam ter o sentimento único de ter, pelas mãos do mesmo, a obra em papel de Ricardo Pinto.
Ricardo Pinto, um rapaz com olhar acanhado, ou a princípio acanhado, tem uma maneira muito especial de ver e tocar o mundo. Tive o prazer de conhecê-lo e, em seguida, ter acesso a algumas de suas obras. Não sei descrever com termos técnicos o que vi, nem quero alimentar em mim essa pretensão, quero, antes disso, dizer da minha alegria e como fiquei estomagado ao conhecer um jovem com uma arte e uma maneira de ser que, de tão especial e peculiar, se estende até as fibras dos papéis nos quais ele traça belas orações de si pra si.
A arte que faz o jovem Ricardo, que por acaso tem o mesmo nome que eu, tem traços fortes e reveladores de uma existência que clama por significado. Na verdade, pareço tatear impreciso com as palavras ao tentar descrever tudo que vi e, de modo especial, como me alegrei parecendo uma criança que ganha um novo brinquedo ou um bandeirantes que descobre o “El dourado”. Toda e qualquer pretensa palavra será insuficiente para traduzir uma arte e uma pessoa com traços à semelhança do infinito.
Já o meu querido padre Arnaldo e sua poesia revelam para comigo uma relação tímida e à distância. Tive o prazer de conhecê-lo nos corredores da Ucsal e, ao ouvir seus versos, me deparei com um modo novo de rezar e, como ele mesmo sugere em um dos seus livros “rezar com a vida”. Há muito tempo queria escrever do meu encanto ao conhecer a vida e obra do padre Arnaldo, mas, confesso, não tive coragem.
Na verdade este grande homem exala poesia por onde passa. Trata-se não apenas de fazer arte, mas deixar que a arte saia pelos seus poros ou lacrimeje seu rosto já definido pelo tempo que, somente no rosto, expressa o seu impiedoso passar. Trata-se de uma arte engajada e com o coração voltado, não somente para questões partidárias, mas questões onde a vida desafia a morte e, ao lado do menino de Nazaré, insiste em triunfar.
Quisera eu poder expressar o que sinto ao contemplar a obra e a vida desses dois grandes vates que, cada um a sua maneira, expressa a beleza do viver. Do sacerdote que, sendo homem e verdadeiramente homem, assume as características do nazareno ainda menino, que interroga e canta as maravilhas do seu Pai. E do desenhista que, ao traçar no papel finas linhas, deixa que sua vida, ainda muito jovem, se derrame a nos brindar com um potencial incomum.
Ao terminar essas pretensas linhas, tenho ainda a sensação que não disse o bastante e que meu texto ainda está aquém de tamanha grandeza artística. Preferiria mil vezes falar dos vates portugueses do século XVIII, ou falar dos cantores berrantes dos nossos tempos, ou ainda falar da arte marginal dos pichadores, a ter que tecer mais linhas que tentem, inutilmente, expressar a grandeza artística de dois homens que, assim como Fernando Pessoa, Francis Bacon e muitos outros dos grandes, me ensinaram a rezar. Em algumas palavras, contemplar os trabalhos desses dois gênios é encontrar um jeito novo de rezar.

Um comentário:

  1. Querido

    Não sei como vc pode se encantar com alguém de um passado tão curto...obrigado pelas generosas linhas e palavras.Não sabia que meu singelo trabalho tinha causado tamanha comoção.Mas tudo depende dos olhos de quem vê,não é mesmo!!!Perdão pelo clichês perto de sua erudição...a minha arte ainda é frágil (grafite modelado em fibras)e precisa ganhar corpo, como eu,mas estou em progesso - que você logo irá acompanhar.Espero que possamos inspirar mais mentes e corações sedentos,os que ainda restam;você com suas palvras e eu com o meus traços...obrigado pela generosidade!!!!Abraços!!
    Até logo!!!

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